segunda-feira, 21 de maio de 2012

Meu ¼ de Século

Eu nasci querendo ser santa, mas nunca disse me coloque em um altar. Minha mãe sempre cobrou isso de mim e vivi durante anos achando que devia isso a ela. Um dia acordei, olhei para o teto e me perguntei: para que ser santa se sou feita de defeitos? Tenho dedos tortos, dentes grandes que me renderam apelidos por toda minha infância. Tenho desejos malucos e amizades não santas. Descobri então que não quero mais ser santa. Buscar a santidade é sinônimo de querer respirar única e exclusivamente a perfeição. Mas afinal, quem gosta de perfeição se o bom da vida são as imperfeições?  Vai dizer que você sonha com um homem perfeito? Que tem um trabalho perfeito? Que nunca reclama de nada? Que sabe cozinhar melhor que você? Que fala tudo que você quer ouvir... etc, etc, etc... Ta, você pode até sonhar com ele, mas eu não sonho. Também parei de sonhar faz tempo. Pra ser mais específica, parei quando percebi que não achava mais o Nick Carter do BSB o homem mais bonito do mundo e que ao invés das músicas do KLB, preferia ouvir nas tardes de domingo Guns N' Roses. A vida é muito curta pra viver em busca do impossível. A realidade também pode tem gosto de jambo, de doce de leite e até mesmo de quindim. Basta você enxergar pelo ângulo certo.
Tem dias que sou triste, olho no espelho e vejo uma rosa ao final de sua plenitude de beleza, prestes a cair à última pétala. Nesses dias, sou mulher sozinha, sou mulher que carece de palavra, sou menina que carece de sorriso, sou recém-nascida que carece de olhar. Às vezes a inércia é tanta que demoro horas para fazer o simples movimento de piscar os olhos. Nos dias que sou triste, olho para mim, olho para dentro e não para fora. Compadeço-me de minha própria solidão. E então, me comparo a um cacto, desejo sê-lo. Não por seus espinhos, mas pela forma e plenitude que o faz necessitar de tão pouca água para embelezar o imenso deserto. Tento não ter dias como esses, mas nem sempre consigo passar pela avenida contrária do destino.
Tem dias que sou feita de sorrisos, outros feita de lágrimas. Sorrisos de lembranças de todas as coisas boas vividas e lágrimas de saudades de pessoas que se foram e pessoas que me fizeram ir.
Em um dos 2.190 telefonemas, minha mãe me disse uma coisa dessas que escutamos as pessoas falarem todos os dias. Ela disse que quem inventou a distância não sabia a dor que era a saudade. Senti falta dela durante esses quase 2.190 dias. Derramei lágrimas à quantidade exata de dias, elevados ao quadrado e multiplicados pelo meu ¼ de século.
Amores? Não foram muitos nem poucos. Quando sonhava, amava ao extremo, chorava ao extremo, sofria ao extremo. Quando tentei viver os sonhos, algumas coisas mudaram, amei tanto quanto, chorei 10 vezes mais e sofri 100 vezes mais. Também já desisti de amar. Na verdade o amor entre homens e mulheres não passa de uma invenção das pessoas para terem motivos de colocar a culpa de sua infelicidade nos outros. Não precisamos de ninguém pra ser feliz. A felicidade está nas pequenas coisas, nos pequenos momentos, ela sai de dentro de nós. Depois que descobri isso, não cometo mais o erro de entregar a minha em uma caixa com um laço de fita vermelho a primeira pessoa que me oferece um sorriso.
Todos os dias como hoje costuma chover, quando era pequena ficava bastante triste porque achava que o céu estava com raiva por eu estar feliz e também porque minha mãe não me deixar sair para cantar enquanto tomando banho das lágrimas de São Pedro. Hoje acredito que chove para celebrar mais um ano, para lavar os erros e oportunizar as novas esperanças e conquistas.
Quando tinha 9, achei que ia morrer de amor, platônico é claro, por aquele garoto da escola que nem se quer olhava pra mim. Quando tinha 10, dizia que jamais ia sofrer por amor. Aos 13, me apaixonei, aos 16 desacreditei. Aos 19 quis casar e aos 24 vi que nada nunca valeu a pena, a não ser alguns sorrisos que foram se perdendo e que hoje lembro vez ou outra. Como agora.
Sou diferente das outras pessoas, gosto de errar. É assim que aprendo. Os erros dos outros nunca me impediram de fazer algo. Fui para o mundo, aprendi, vivi e aqui estou parada no ¼ de século. Meu ¼ de século.
Se me perguntar até quando quero viver, digo que até amanhã, até depois, até meio e até um século. Quero nada mais do que o necessário, pois a vida só é longa ou curta demais para quem não sabe viver.
Vivo hoje, lembrando o passado e querendo cada vez mais descobrir a flor que o amanhã me trará.


Feliz ¼ de século para mim e para vocês.



Lauro de Freitas, 19/05/2012
Rita Brito

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Enterro do Eu

Hoje fui a um enterro de um velho conhecido meu.

(...)

Quando cheguei lá estavam todos em silêncio, atônitos com a situação.
Parece que o defunto era um velho conhecido de todos, amados por uns odiados por outros como todos são nessa vida.
Pareceu-me que todos se perguntavam a causa da morte, mas ninguém sabia ao certo.
Procurei os familiares para prestar minhas condolências.
Não entendi porque falava e ninguém me ouvia.
Procurei a mãe, os irmãos, os tios... A dor era tão profunda que ninguém levantava se quer a cabeça.
Olhei ao redor... Todos os meus amigos estavam lá. Colegas de escola, com quem tinham convivido apenas alguns anos, os da pista de skate, os da faculdade, dos trabalhos que já passei, das igrejas que já congreguei... até aqueles que conheci em festas e nunca mais os vi.
Todos, sem exceção estavam lá...
Comecei a relembrar algumas coisas, casos da vida que vivi com cada um...
Pena que a tristeza era tamanha que não me deixou abraçar todos eles.
Andei mais um pouco para ver se chegava até o caixão e mais uma vez fiquei surpresa com a quantidade de pessoas presentes.
Avistei minha mãe de longe, quis chegar perto, mas ela estava próximo demais ao caixão. Não consegui.
Não conseguia mais me mover. Era como se meus pés estivessem acorrentados ao chão. Fechei os olhos...
(...)
Ouvi uma voz que dizia: “vamos minha neguinha, enfeitar o jardim da nova casa”
Reconheci a voz. Não a escutava há algum tempo. Hesitei ao abrir os olhos e quando os abri minha boca exclamou sem que eu pudesse controlar: “Pai”.
Recebi um abraço no qual já havia esquecido o teor e a intensidade.
Ele foi à única pessoa que conseguiu me ouvir naquela sala.
Convidou-me a olhar em volta, parecia um filme passando diante dos meus olhos.
Quando dei por mim, lá estava eu, deitada sobre mim mesma vendo pelo pequeno vidro a primeira pá de terra sendo jogada.
Quis me desesperar, quis sair, quis fugir, mas já não havia nada a fazer.
Foi então que vi a pessoa que julguei mais amar nessa vida pisar nas rosas plantadas no meu túmulo.
(...)
Acordei.
Mas não se engane como eu. Isso não foi um sonho.
Tudo não passou de uma realidade dura, fria e amarga.

Causa da morte: Amor intenso.
Data do óbito: 21/02/2012

Saudades eternas...


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Presente

Um dia, andando na rua, fazendo uma das coisas mais rotineiras, me deparo com alguém. Disse-lhe “oi”, trocamos sorrisos e ganhei um abraço ao final do último passo de dança. Fui embora e só aí me dei conta que havia esquecido algo. Não havia perguntado o nome desse alguém. Continuei a andar, a falar, a dançar, a tão somente viver.  Mais aquele alguém fez morada em meus pensamentos.
Algumas vezes, durante a noite, abria a janela e admirava as estrelas, que são tão raras no céu como esse. Ao fazer isso, tentava inferir do destino o motivo pelo qual aquele alguém havia cruzado meu caminho. Aquilo se repetiu por muitas e muitas noites.
Enquanto tudo martelava na cabeça, o coração gritava pedindo sossego. Esse coração que tanto sofreu, hoje, inquieto, pede apenas solidão.
Passei a andar pelas ruas a olhar para as pessoas, buscava quem sabe assim encontrar aquele alguém. Queria dizer outro “oi” e dessa vez, sem sombras de dúvidas, perguntaria seu nome. Mas de nada adiantou. Parece que o destino andava me pregando peças.
Até que um dia, depois de não muito tempo, o telefone tocou, o destino falou, me disse “oi” e sorriu. Depois daquele dia, tudo mudou. O doce ficou salgado, o branco cinza ficou, o céu se esverdeou e o brilho daquele olhar se eternizou.
Mas quem era aquele alguém, sabia apenas que era um bastão de combate e nada mais.
Queria saber mais, queria viver mais. Mas aquele amor agridoce de todos os dias não me permitia.
Foi quando decidi fugir.
Corri, nadei e remei contra o vento que me levava até ele.
Como fui tola, tanto esforço em vão.
Não se consegue fugir do destino. Digo-vos isso por que um dia, enquanto andava pela praia, vi de longe alguém, a cada passo se aproximando mais e mais. Fiquei atônita. Não conseguia ver quem era, mas sentia. As pernas trêmulas, o coração a palpitar... Era aquele alguém. Mas o que fazer? O que falar? O que pensar? O que sentir?
Quando em minha frente chegou, olhei em seus olhos e a única coisa que consegui fazer foi sorrir. Ele segurou minha mão e começamos a andar. As ondas molhavam levemente nossos pés, como se lavasse nosso passado. Nenhuma palavra se disse. Até que minha ansiedade impulsionou meus sentidos.  Perguntei qual era seu nome, ele me olhou e disse: alguns me chamam de passado, outros me conhecem como futuro, mas pra você, serei hoje e sempre apenas seu PRESENTE.


Escrito por Rita Brito em 02/08/11 ®

terça-feira, 26 de julho de 2011

Meu Nada

Dediquei algumas horas no início dessa manhã a pensar no Nada. Ou seria pensar em Nada?
Às vezes me sinto vazia, sozinha, triste e longe de todos.
E quando isso acontece, normalmente faço as coisas que mais gosto: toco uma música, leio um livro, escrevo algo...
Mas hoje o Nada estava tão presente dentro de mim que acabei por fazer exatamente Nada.
Depois de alguns segundos escutei uma música. Meu Deus! Ela também falava do Nada.
Mais o que de fato é o Nada? Isso martelou na minha cabeça.
Pragmaticamente falando, o Nada é aquilo que não existe, é o não-ser.
Mais como posso pensar em Nada se ele se quer existe?
O certo seria pensar apenas nas coisas que deveras existem.
Pergunto então a você, meu caro leitor. Você consegue de fato no Nada pensar ou em Nada pensar?
Hoje percebi que quem vos escreve, não consegue.
Não consigo pensar em Nada, consigo apenas pensar no Nada. E quando isso acontece o Nada se torna objeto do meu pensamento.
Confuso? Não! Algo extremamente óbvio.
Existem muitos Nadas pelo mundo. Cada pessoa tem o seu Nada e talvez ele seja movido única e absolutamente por suas idiossincrasias.
Mais não quero pensar no seu Nada. Até porque o seu Nada nunca vai ser o meu Nada.
Continuemos, pois, nossos dias, refletindo, vivendo e ansiando um dia talvez chegar ao extremo pensamento de em Nada conseguir pensar.

Escrito por Rita Brito em 26/07/11 ®

Romance

Vamos nos conhecer?
Eu falo sobre mim e você me fala de você.
Vamos namorar?
Eu te peço e você diz que vai pensar.
Vamos duvidar?
Hoje duvido de você e amanhã você duvida de mim.
Vamos dizer a verdade?
Hoje eu falo aquilo que você quer ouvir e amanhã você diz que me ama.
Vamos amar?
Hoje eu te amo e amanhã você apenas gosta de mim.
Vamos aprender?
Hoje você me ensina e amanhã eu te deixo em paz.
Vamos beijar?
Hoje eu te beijo e amanhã você beija um “não eu”.
Vamos casar?
Eu caso com você, mas você não se casa comigo.
Vamos nos apaixonar?
Eu por você de novo e você por alguém novo.
Vamos terminar?
Eu termino com você e você termina com os outros.
Vamos desistir?
Eu desisto de você e você desiste de mim.
Vamos ficar longe?
E assim seremos felizes para sempre.




Escrito por Rita Brito em 26/07/11 ®

terça-feira, 12 de julho de 2011

Aquele Lugar

         Acordei cedo, fui a um lugar incomum em um dia incomum. Vi de perto o sofrimento, a dor, a angustia... Lamentei o sofrimento, me angustiei ao ver tanta dor. 
         Nada pude fazer... Em tudo pensei... Meus olhos fechei... Uma oração exclamei... Um rio de lágrimas presenciei...
(...)
Quanto sofrimento no rosto de jovens e não jovens.
Em meio a tudo lá estava Daniela... Quando a escutei, a olhei... Não deixei as lágrimas caírem, mesmo a vontade eminente do coração sendo dividir aquele pranto... Olhei em seus olhos... Orei novamente... Sua face abatida, semblante tênue. Jamais irei esquecer-te Daniela. Que sejam eternizadas orações e preces.

Por um segundo não queria olhar ao meu redor, queria não ver, mas ainda não era hora!

            Olhei para minha frente, olhei para o nada e tornei a olhar para frente. Ao fazer isso vi a primeira Maria, com seus 85 anos de tristezas, alegrias, trabalhos e vitórias. Seu semblante cansado gritava por descanso, mal conseguindo do leito levantar, gritava pra a vida a deixar ir. 

Lembrei dos meus que já foram e dos que estão tão longe de mim... 
 Do seu lado tinha Dona Ana, sozinha em sua solidão. Com seu sorriso esplêndido, balbuciava vez ou outra seu desejo de ir pra casa. Como aprendi com ela. Todas as vezes que lá voltei ganhei um presente ao qual nenhuma outra pessoa poderia me dar: um sorriso. 
            Ao meu lado dormia a mais jovem de todas, fiquei a observar... Sua mãe do lado acariciava seus cabelos negros. Quanto cuidado, quanto zelo, quanto amor. Seu olhar demonstrava toda preocupação de mãe que ao mesmo tempo se revertia em oração, resultando na certeza da cura. A jovem trazia consigo mais lutas e batalhas como aquelas que sua idade comportava. Todos os seus poucos anos de vida revertidos no semblante de sua mãe.
Em meus 24 anos de existência, posso dizer-vos que poucas vezes vi cenas como essas.
        Mais uma vez lembrei-me dos meus, dos que já foram e dos que estão longe...
          Lembrei-me de minha mãe e do mesmo carinho e apreço que dedicou a mim e a meus irmãos.
          Fiquei inerte lá por mais algumas horas. Quando digo inerte refiro-me a alma e pensamento...
     Outras Marias passaram por lá. Marias que minha boca se quer direcionou um “oi”. Marias com dores e pesares diferentes.
Passei mais algumas horas...
Enfim chegou a hora de ir...
Saí daquele lugar, mas aquele lugar jamais saiu de mim.

Escrito por Rita Brito em 12/07/11 ®


segunda-feira, 11 de julho de 2011

HOJE...



HOJE fiz muitas coisas...
HOJE peguei um gato que estava sentado no asfalto.
HOJE acendi uma vela, mesmo que sem reza... Para mim, para você, para nós.
HOJE cantei uma música nova, daquelas que você jamais ouviu ou cantou.
HOJE toquei uma música, de uma forma que nunca havia tocado.
HOJE a nudez tomou conta do meu ser. Nudez de amor, de querer, de ser, de estar e de prazer.
HOJE não pensei em nada, não senti nada, não amei nada.
HOJE fui grávida, fui mãe, fui filha, fui mulher. Fui Maria, Joana, Acássia e Betânia.
HOJE olhei para o nada, vi o nada, mas ele não me viu...
HOJE fui alguém? Não, meu caro amigo! Hoje eu não fui ninguém.
HOJE tive novos pensamentos, novos anseios, novos desejos. E esses foram os novos mais antigos de minha vida.
Mas a final o que é o HOJE se não o mero ontem quando chegar o amanhã? Não quero pensar! Tenho medo que ele viaje ao passado.
O HOJE não é só um estado nem um mero por acaso. O HOJE é escolha. Mas o que escolher afinal? Eu escolho não escolher. Mas será que posso? Será que devo? Será? Será?...
(...)
Só agora me perguntas por quê?
Escrevo HOJE sobre HOJE, porque só HOJE conheci alguém...
Porque só HOJE me conheci...


Escrito por Rita Brito em 11/07/11 ®